Diálogos no celular de Daniel Vorcaro com executivo da Editora Globo mostram intimidade, negociação de patrocínios e pressão contra jornalistas do grupo; em nota, empresa reafirma independência editorial do jornalismo
Durante a estadia em Nova York, Kachar marca encontro com o banqueiro, que o convida para uma festa privê “sem celular”. Segundo veiculado na imprensa, o banqueiro tem registros em seu celular de tratativas para festas com garotas de programa estrangeiras. Contudo, pelas mensagens trocadas, não é possível afirmar que houvesse a presença de garotas de programa neste evento específico promovido em Nova York.
A troca de mensagens demonstra como funcionavam os convites para o ‘after’ restrito. No dia 15 de maio, data do Summit do Valor, Kachar pergunta se Vorcaro iria passar mais tarde no evento da Câmara de Comércio Brasil/Estados Unidos chamado Person Of The Year, no que o banqueiro avisa que mais tarde, depois, iria “para a guerra”.
“Vai ao POY a noite?”, pergunta Kachar. “Vou passar la e depois ir pra guerra. Se voce animar. Hoje tem”, diz o banqueiro, ouvindo a seguinte resposta : “Hahahaha. Aonde? Tem essa coisa da Forbes. Vc vai?” “Vou nada. La nao ea nem pra olhar pro lado. Fechei um lugar. Sem celular. E sem risco. Pra verdadeira festa rsrs”, diz Vorcaro. Kachar então se oferece para ir no evento privê do Master: “Eh nessa q eu vou! Posso, né?” “Óbvio. Convidado de honra”, diz o banqueiro. “Merci”, agradece Kachar. Mas Vorcaro se apressa para explicar, fazendo referência a eventos parceiros que promoveu no Brasil: “Nao è tao bom quanto o do Brasil. Pq aqui contatos sao diferentes. Mas sera legal”. Kachar completa: “Não tenho dúvidas.”
Em julho, o banqueiro manda mensagem reforçar o laço de amizade com o ex-CEO do Globo. “Acho que precisamos falar ne? Temos uma amizade que supera negócios”. Kachar responde: “Claro, vamos sim. Como estão seus horários hoje? Final da tarde no horário daqui eh bom?”. Eles acabam combinando uma ligação que, segundo registros do celular durou 14 minutos.
No dia 15 daquele mês, Vorcaro manda uma mensagem depois da meia noite para Kachar para falar de texto publicado pela jornalista Malu Gaspar e indaga que O Globo estava fazendo uma campanha contra ele.
“Desculpe a hora meu amigo, mas depois da uma olhada na diferença de narrativa. Malu (Gaspar) certamente ta com algo contra mim, que temos que resolver. A 0h44, Kachar responde: ”Fala meu amigo. Acabei de ler agora. Vamos marcar o seu encontro com ela na semana que vem. Até o último parágrafo são apenas fatos. No final tem opinião. Me lembro de vc dizer que esse tarso não te preocupava tb.Podemos falar amanhã, se vc quiserAbs". Vorcaro contesta: “Nao me preocupa a matéria. Mas o tom da Malu. E nao estou entendendo o motivo”.
Às 8h, Vorcaro manda nova mensagem. De novo para falar de textos jornalísticos do Globo. “Fred bom dia. Preciso entender se é uma campanha corporativa contra mim. De verdade amigo. Passou dos limites isso. Lauro (Jardim) acabou de soltar uma informação falsa. Nao comprei esse apartamento. Isso é muito serio o que está acontecendo”. Kachar responde cinco minutos depois: “Bom dia. Não estou sabendo de nada. Onde está essa nota? Não tem campanha alguma, claro. Olhei o blog e não achei. Vorcaro dá a entender que acabou falando diretamente com o jornalista: ”Resolvido com ele. Pode deixar. Assunto morreu".
A blitz contra o noticiário e a devassa nos bastidores
O desconforto de Vorcaro, no entanto, não se limitava a queixas pontuais. Os registros do celular, que abrangem conversas trocadas entre o final de 2023 e meados de 2025, revelam uma verdadeira blitz de reclamações do banqueiro direcionadas a Fred Kachar a respeito da cobertura editorial de O Globo e do Valor Econômico.
Embora o então CEO da Editora Globo adotasse um tom de parceria comercial na maior parte do tempo, a relação era testada quando o noticiário contrariava o dono do Banco Master. Nesses momentos, Kachar alternava entre tentar apaziguar o parceiro e não ceder à pressão, recusando-se a interferir no conteúdo.
O caso mais tenso com a direção ocorreu no final de abril de 2024. Irritado com uma publicação da colunista Malu Gaspar no X (antigo Twitter) sobre o patrocínio não declarado do Master a um evento em Londres com ministros do STF, Vorcaro ameaçou cancelar o patrocínio a um evento do jornal Valor Econômico em Nova York.
A resposta de Kachar foi dura: “Bom dia, meu caro. Não estou entendendo esse seu tom comigo (...) Não posso censurar um colunista e seus perfis”. O CEO ainda “pagou para ver”: “Se vc quiser cancelar sua participação no evento, não tem problema”. Diante da resposta firme, Vorcaro recuou da ameaça, dizendo que fora apenas “um desabafo”.
Apesar das negativas formais de censura, semanas antes Kachar havia atuado para tranquilizar o banqueiro sobre outra reportagem iminente. “Meu caro, espuma. Tem uma pauta com a Aneel, mas sem entrar nessa narrativa”, escreveu Kachar, completando: “E nem eh desse repórter rs”. O banqueiro agradeceu: “Boa. Ótimo”.
A proximidade entre os dois também se refletia na forma como Kachar aconselhava Vorcaro a lidar com a imprensa fora dos domínios do Grupo Globo. Em outro trecho das conversas, o então CEO comenta uma longa reportagem da revista piauí, assinada pela jornalista Consuelo Dieguez, que esmiuçava os negócios e a ascensão do Banco Master. Na troca de mensagens, Kachar desqualifica a publicação, afirmando que a revista teria se tornado “denuncista”, e orienta o banqueiro a se posicionar publicamente para se defender.
Em abril de 2025, Vorcaro acionou o publicitário Thiago Miranda para promover uma verdadeira devassa na vida pessoal de Malu Gaspar. Mensagens interceptadas pela PF mostram o banqueiro ordenando: “Vamos ter que pegar algo dessa mulher no pessoal”. Miranda prometeu “revirar a vida dela”, mas a busca foi frustrada. “Nem multa na CNH dela encontrei”, disse o publicitário.
Sem material para chantagem, a dupla tentou outra tática: oferecer um contrato milionário na empresa de Miranda (com luvas de R$ 1,5 milhão e R$ 120 mil mensais) para cooptar e silenciar a jornalista.
Em julho, Vorcaro volta a procurar Kachar de madrugada para reclamar de Malu Gaspar, insinuando que O Globo estaria promovendo uma “campanha corporativa” contra ele. Na mesma manhã, às 8h, ele incluiu Lauro Jardim no alvo de suas cobranças a Kachar, em razão de notas sobre o seu patrimônio — à época, o colunista revelou negócios imobiliários do banqueiro envolvendo um apartamento de luxo.
“Fred bom dia. Preciso entender se é uma campanha corporativa contra mim. De verdade amigo. Passou dos limites isso. Lauro (Jardim) acabou de soltar uma informação falsa. Nao comprei esse apartamento. Isso é muito serio o que está acontecendo”, escreveu o banqueiro.
Kachar novamente rechaçou a pressão institucional: “Não tem campanha alguma, claro”. Minutos depois, Vorcaro dá a entender que usou outro caminho para resolver a situação: “Resolvido com ele. Pode deixar. Assunto morreu”.
Mensagens com Thiago Miranda na mesma época mostraram Vorcaro enfurecido porque Lauro e Malu “vieram com mais fúria após a abordagem”. E a solução cogitada, segundo as apurações da PF, era um plano para simular um assalto e agredir Lauro Jardim fisicamente.
Kachar estava na empresa há 29 anos e liderava a gestão corporativa dos jornais O Globo, Extra e Valor Econômico; das publicações da Editora Globo, como as revistas Vogue, Marie Claire, Quem e Época Negócios, e do Sistema Globo de Rádio, que inclui a rádio CBN.
Em comunicado oficial divulgado nesta quinta-feira (15), o Grupo Globo declarou que teve acesso aos diálogos na quarta-feira (14) e que o teor das conversas violou as diretrizes internas da corporação.
“O conteúdo das conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025, às quais a empresa teve acesso ontem, revela uma relação inadequada do executivo com um anunciante”, afirmou a direção do grupo na nota.
No mesmo texto, a empresa defendeu o trabalho de suas equipes de reportagem e sustentou que as apurações jornalísticas sobre as suspeitas que envolvem o sistema financeiro não foram afetadas.
“A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo”, disse o comunicado.
A nota conclui com o reconhecimento da trajetória profissional de Kachar e informa que a definição de quem assumirá o comando da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio ocorrerá em breve.
Patrocínios em eventos
O conjunto de mensagens extraídas pela perícia policial do telefone celular de Vorcaro, revelado inicialmente pelas equipes de reportagem do portal UOL e do jornal O Estado de S. Paulo, abrange trocas de mensagens ocorridas entre o fim de 2023 e julho de 2025. Os registros mostram tratativas de patrocínio empresarial, cobranças sobre a cobertura da imprensa, convites para eventos sociais restritos e pedidos de veiculação de reportagens.
Conforme publicado pelo UOL, Vorcaro acionou Kachar diretamente para promover a marca de suplementos da influenciadora Martha Graeff, sua então namorada, sugerindo a publicação de uma capa na revista Vogue.
Na ocasião, o diretor respondeu que a capa na revista exigiria “um processo mais longo”, mas garantiu espaço nos veículos: “Eu te asseguro um destaque importante pra Martha. E falarei de capa também com Marie Claire e Ela. Vou pautar Vogue, Marie Claire e Ela”. Dias depois, as três publicações divulgaram matérias sobre a marca.
As mensagens documentam ainda a negociação de cotas financeiras. O Banco Master destinou R$ 825 mil para o patrocínio do Baile da Vogue em 2024 e R$ 1,6 milhão para o camarote da editora no Carnaval carioca de 2023.
Em 2025, quando as operações financeiras do banco passaram a ser alvo de fiscalização pública, Kachar propôs retirar a menção formal à instituição financeira das cotas e alocar outras duas empresas pertencentes a Vorcaro nos contratos publicitários, acordando “500k na Vogue e 800k no camarote”.
Pressões sobre a cobertura econômica
Os arquivos periciais mostram também que Vorcaro procurava o diretor do Grupo Globo para contestar reportagens e notas assinadas por jornalistas da casa. Em abril de 2024, o ex-banqueiro manifestou insatisfação com publicações da colunista Malu Gaspar sobre patrocínios a eventos no exterior com a presença de integrantes do Judiciário e insinuou que suspenderia o apoio comercial ao fórum do Valor Econômico em Nova York.
Naquela ocasião, Kachar respondeu, pontuando os limites da atuação corporativa: “Não estou entendendo esse seu tom comigo. Sempre tivemos uma relação de harmonia e respeito. Se tiver algum erro na coluna da Malu, peço a correção imediata. Esse post não saiu no jornal, mas no perfil dela”, escreveu. “Não posso censurar um colunista e seus perfis”, disse.
Em julho do mesmo ano, Vorcaro questionou se havia uma “campanha corporativa” contra suas empresas após publicações do colunista Lauro Jardim a respeito de transações imobiliárias. Kachar rechaçou a alegação de intervenção institucional: “Não tem campanha alguma, claro”






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